“Sempre gostei de música e tenho vontade de aprender a tocar violão, mas acho que não tenho o dom…”

Por várias vezes ouvi essa frase. Há muitas pessoas que deixam de se dedicar ao aprendizado de um instrumento musical porque acreditam que não possuem o dom, talento, facilidade, predisposição e tantas outras denominações que sustentam a mesma ideia: a de que a habilidade de fazer música é uma dádiva concedida alguns poucos eleitos, alguns poucos que já nasceram com algo mais que os diferencia dos reles mortais.

Seria essa ideia verdadeira? Afinal de contas, a música é somente uma questão de talento?

É preciso desmistificar o aprendizado musical. Fico estarrecido ao perceber que tantas pessoas deixam de desfrutar do prazer de tocar um instrumento por acreditarem que não têm talento; e mais estarrecido ainda quando vejo que muitas dessas pessoas não almejam a música como carreira profissional, mas apenas como diversão, pra fazer uma banda de fim-de-semana com amigos, tocar na igreja, ou simplesmente ficar no quarto relaxando, cantando e tocando suas músicas preferidas.

Para mim, mais que uma profissão, a música é uma atividade espiritual…

Nunca ouvi alguém dizer: “Gosto de andar de carro, queria aprender a dirigir, mas acho que não tenho talento”. Dirigir, assim como tocar um instrumento, requer coordenação motora, atenção, reflexo; mas ninguém se acha incapaz, as pessoas simplesmente entram numa auto-escola, praticam a direção, e saem por aí dirigindo. Porém (ái, porém), na hora de pegar um violãozinho e aprender a tocar uma música, começa a paranóia: “Não tenho talento!”… e olha que com o violão não se pode matar ninguém atropelado! Música, como dirigir, ou qualquer outra  atividade, é uma simples questão de prática.

Você conhece um pianista chamado Lang Lang? Ele é chinês, tocou na abertura dos jogos olímpicos de 2008 em Pequim, tem vinte e tantos anos e é um dos maiores nomes da música erudita da atualidade. Recentemente vi uma entrevista onde Lang Lang contava que quando tinha menos de 15 anos entrou num conservatório de música, e acabou sendo reprovado logos nos primeiros meses; sua professora lhe disse para desistir do piano, pois não tinha talento. Ainda bem que ele não acreditou, continuou praticando, começou a estudar com outro professor, e hoje é um dos maiores músicos do mundo. O quê o levou a essa posição? Seu talento não percebido pela professora, ou a dedicação que continuou tendo mesmo quando desencorajado a seguir o aprendizado?

Outro caso: Rafael Rabello, violonista brasileiro, precocemente falecido em 1995, com trinta e poucos anos, mas que na sua breve trajetória produziu o suficiente para se tornar um dos maiores violonista do Brasil (só não digo “o maior” pra não criar polêmica…) e do mundo. É conhecida (e verdadeira) a história de que Rafael, ainda adolescente, era tão fissurado no violão que, na impossibilidade de fazer aulas com seu maior ídolo, o violonista Dino 7 cordas, tirou de ouvido dezenas de gravações deste, dezenas literalmente, e era capaz de tocar de cór vários discos de Cartola, João Nogueira, e outros onde o acompanhamento de violão ficou por conta do Dino. Imaginem quantas horas, semanas, meses, o jovem Rafael passou no quarto, sentado com violão na mão, ao lado da vitrola, tirando e colocando a agulha no disco repetidamente, ouvindo várias vezes cada pequeno trecho até conseguir catar no instrumento as notas que ouvia na gravação.

E aí, talento ou dedicação?

Por outro lado, não posso ser hipócrita. No meu trabalho como professor, lidando diariamente com estudantes de violão, muitos dos quais nunca tiveram o mínimo contato com o instrumento, percebo que alguns alunos precisam se esforçar menos que outros para se desenvolver, ou – pra usar essa expressão bastante comum e que eu detesto – alguns “tem o dom”. Sim, isso existe; assim como uma pessoa precisa usar óculos e outra não, uma tem alergia e outra não, algumas pessoas têm mais facilidade do que outras para a música. Esse fato, no entanto, não é garantia de nada: no fim das contas, os alunos que se destacam não são aqueles que possuem essa facilidade, e sim aqueles que mais se dedicaram à prática do instrumento.

A dedicação acaba sendo mais importante que o talento, seja na música ou fora dela. Como torcedor de futebol e bom rubro-negro que sou (me desculpe se isso decepcionou alguém, galera da “elite”…), me sinto à vontade pra citar um exemplo de que talento sem dedicação não resolve: quem vê o Ronaldinho Gaúcho jogar percebe a imensa facilidade que ele tem pra dominar e conduzir a bola; parece que fica grudada no pé dele! Mas aí, a vida de farras e marias-chuteiras, incompatíveis com a disciplina exigida pela vida de atleta, esvaziou seu “dom” pro futebol, e suas últimas apresentações pelo Flamengo foram sofríveis, e toda sua passagem pelo clube um fiasco, com alguns bons momentos sim, mas muito abaixo da expectativa criada pelo seu flagrante talento, mesmo quando se leva em conta o fato de não apresentar o mesmo vigor físico de atletas mais jovens. Já o sérvio Petkovic, o querido Pet, em 2009, jogando em posição parecida e mais velho que Ronaldinho, foi muito mais valioso pro time, uma peça chave pra conquista do Brasileirão daquele ano. Claramente com menos talento que o Gaúcho, porém (ái, porém) muito mais dedicado.

Quando pego uma turma de iniciantes que nunca teve nenhum contato com o violão, estão começando o instrumento do zero, ao final da primeira aula, quando eles já aprenderam dois acordes simples e deram o primeiro passo, eu costumo dizer: “Pense no melhor violonista que você já viu” – e após uma pausa dramática, concluo – “Em algum dia da vida dele, esse violonista tocou menos do que você está tocando agora”. A gente nasce sabendo muito pouca coisa; até a andar a gente precisa aprender. Se existe uma diferença entre os grandes gênios da música (ou de qualquer área) e as outras pessoas, a diferença é que esses gênios dedicaram uma boa parte das suas vidas a estudar e praticar a arte em que acabaram por se destacar. Muito mais do que um “dom”, “talento” ou “facilidade”, conceitos altamente subjetivos e carregados de dogma e ingenuidade, fazer bem uma coisa requer esforço, trabalho, prática, ou pra resumir numa palavra, dedicação; e os mais dedicados sempre serão os que tem vocação, ou seja, os que são apaixonados, os que sentem uma atração magnética pela atividade em si, independente dos resultados ou recompensas.

Para mim, mais que uma profissão, a música é uma atividade espiritual, e com ela me conecto a mim mesmo e ao que eu chamo Deus (com a licença dos ateus, agnósticos, materialistas e argentinos). Acredito que essa conexão é uma capacidade que todas as pessoas possuem, contanto que estejam dispostas a desenvolvê-la. Portanto, se você pretende ser um grande nome da música, ou simplesmente deseja tocar numa banda com amigos, esqueça essa história de talento, apenas procure um bom professor e dedique-se. Como diria Ian Guest, nome fundamental na didática voltada para o ensino de música popular no Brasil: “Deitar a mão no instrumento impunemente e se arriscar é o começo de tudo… e a linha de chegada.”